Cura do Medo da Morte... (Ibn Sina)
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Louvado seja Deus, Senhor dos mundos, que suas bendições sejam sobre o nosso
Senhor Muhammad[3] e seus familiares, os
agradáveis, os castos.
Sendo o medo da morte um dos mais
vigorosos que acompanha o homem e sendo este medo geral e, em sua
generalidade, o mais forte e severo de todos os medos, é necessário que eu
diga que o medo da morte não se apresenta a não ser para quem, na verdade,
não sabe o que é a morte ou não tem ciência para onde irá sua alma ou
porque presume que se sofrer dissolução ou sua constituição se aniquilar,
estaria, então, dissolvida sua essência e sua alma estaria aniquilada; uma
aniquilação igual a do não-ser, presumindo que o mundo permanecerá, estando
ele presente ou não, porque ignora a questão da permanência da alma e o modo
do retorno da mesma ou porque presume que há forte sofrimento na
morte, diferente do sofrimento pelas doenças que talvez o tenham acometido e
foram a causa de sua aniquilação ou porque acredita que suas punições se
apossarão dele após a morte ou porque está atônito, não sabe para
onde irá após a morte ou porque lamenta por aquilo que deixará em
riqueza e posses. Tudo isto são presunções falsas, não têm veracidade.
Quanto à ignorância a
respeito da morte e não saber o que ela é, esclarecerei que a morte não é
senão a alma deixar de utilizar seus instrumentos, que são os órgãos cuja
soma chama-se corpo, tal como um artesão abandona seus instrumentos.
A alma é uma substância
não corpórea, não está sujeita e nem é receptiva à corrupção. Este
esclarecimento necessita de conhecimentos que o antecedem. Isto está
esclarecido e explicado em seu devido lugar[4]. Se esta substância abandonar
o corpo, ela permanece e esta permanência lhe é própria, isenta das moléstias
da natureza , feliz, cuja felicidade é completa; não havendo meio
para seu aniquilamento e para sua não existência. A substância não se
aniquila enquanto é substância; sua essência não se aniquila, entretanto os
acidentes, as particularidades, as relações e as correlações que existem
entre a mesma e os corpos se anulam por intermédio de seus contrários. Quanto
à substância, ela não tem contrário; cada coisa que se corrompe, se corrompe
por seu contrário. Se você observar a substância corpórea, que é mais vil do
que a substância nobre, a encontrará não sujeita à aniquilação e à destruição
enquanto substância, mas uma substância em relação à outra modifica-se.
Deste modo, rejeita-se alguma coisa própria da substância e rejeita-se seus
acidentes.
Quanto à própria
substância, ela permanece e não há meio para sua não existência e seu
aniquilamento. A substância espiritual[5] não aceita transformação nem
alteração em sua essência, aceita , porém, a completude e as perfeições
de sua forma. Como então imaginar nela o não-ser e a destruição?
Quem tem medo da morte porque não
tem ciência para onde irá sua alma ou porque presume que se seu corpo sofrer
dissolução e sua constituição aniquilar-se, se aniquilariam tanto sua
essência como sua alma e, além disso, ignorando a permanência da alma e a
qualidade do retorno[6], então, na verdade, não tem medo da
morte mas, ignora o que é necessário saber. A ignorância é o medo e a causa
do medo da morte, e esta ignorância é o que levou os sábios a
desejarem o conhecimento e a dedicação em função deste, bem como a
abandonarem os prazeres do corpo e o repouso do mesmo, optando pela aplicação
e pela vigília. Perceberam que o descanso de se libertar da ignorância é o
verdadeiro descanso e o verdadeiro cansaço é o cansaço da ignorância porque
esta é uma enfermidade que está na alma e eximir-se dela é libertação e
descanso duradouro e prazer eterno.
Quando os sábios creram
nisso, refletiram e procuraram a verdade a respeito , alcançando
a mesma pelo intelecto e, assim, obtendo tranqüilidade, todas as questões
terrenas ficaram simples para eles. Vilipendiaram tudo que as pessoas em
geral consideram importante, como dinheiro e riqueza, os prazeres sensíveis e
os desejos que levam a estes prazeres. Se os desejos forem de pouca afirmação
e permanência, rapidamente perecem e desaparecem; trazem muitas preocupações
quando existem e imensas aflições quando não existem, então os filósofos os
evitaram na medida do necessário na vida e se consolaram com o mérito de
viver nesta vida sem os vícios que mencionei e não mencionei também, porque
estes não levam a um objetivo. Pois, se o ser humano alcançar um propósito
nesta vida, é levado a outro propósito, sem limite nem término num limite.
Esta é a morte da qual não se deve ter medo, e o empenho pela mesma[7] é o empenho pelo efêmero,
dedicar-se a ela é dedicar-se ao fútil; por isso, segundo o juízo dos
filósofos, a morte são duas mortes. Uma voluntária e outra natural. Também, a
vida são duas vidas: uma vida voluntária e outra natural - quiseram
significar por morte voluntária, a morte da concupiscência e o abandono da
exposição a ela e quiseram significar por vida voluntária aquilo em função do
qual o homem se esforça na vida terrena no que diz respeito a alimentos, a
bebidas e à concupiscência e quiseram significar por vida natural, a
permanência da alma, duradoura na felicidade eterna pelo que adquire de
benefício através do conhecimento e isenção da ignorância – por isso o
filósofo[8] Plotino, que Deus conceda o
descanso à sua tumba, que perquiriu a sabedoria; recomendou e disse: “morra
voluntariamente, viverás
naturalmente”.
As pessoas que têm medo da morte natural, têm medo do que é necessário suplicar, porque a pessoa é um “vivente racional, mortal”. Então, a morte é perfeição e completude e por ela atinge-se o mais alto grau de entendimento. Quem souber que toda coisa é composta por sua própria definição e sua definição é composta por seu gênero e suas diferenças (específicas) e que o gênero da pessoa é o vivente e suas diferenças são as coisas racionais e as mortais, sabe que depende de seu gênero e de suas diferenças porque todo composto, sem dúvida, depende da coisa a partir da qual foi composto. Quem ignorar aquilo do qual está tendo medo a perfeição de sua essência e qual é a pior situação, quem estimar que sua própria aniquilação se dá através de sua vida e sua imperfeição se dá através de sua perfeição, e, ainda, se o imperfeito tiver medo de se aperfeiçoar, ignora a si mesmo no máximo da ignorância. Então, é dever daquele que compreende, entristecer-se com a imperfeição e ser afável com a perfeição, procurar tudo que o aperfeiçoa, o completa e o dignifica e eleva sua situação. Deve desvincular-se do aspecto que acredita levá-lo ao medo e não se desvincular do aspecto que fortalece sua certeza e o acrescenta quanto à sua constituição e ao seu comprometimento. Assim, terá certeza que se a substância divina, nobre, ficar livre da substância corpórea grosseira, porém, uma libertação pura e sincera e não uma libertação mesclada e obscura, então atingirá o mundo mais elevado e retornará à Sua soberania e se aproximará de seu Criador; passará para a proteção do Senhor dos mundos e estará na companhia dos espíritos agradáveis, parecidos e semelhantes a ele e ficará salvo de seus opostos e seus diferentes.
A partir disto, sabemos
que aquele cuja alma separar-se de seu corpo porém, desejosa do
corpo, compadecida, temendo a separação deste corpo, esta alma
está no máximo do infortúnio e da dor em sua essência, e sua substância se
distancia do aspecto de sua permanência, desejando a sua própria permanência
para estabelecer-se nela.
Quanto a quem presume que a morte é
uma dor terrível, diferente da dor das enfermidades que talvez tenham
se lhe apresentado, sua presunção é falsa porque a dor se dá por apreensão e
a apreensão pertence ao vivente e o vivente é quem recebe a
influência da alma. O corpo que não tem influência da alma, não sente dor e
nem tem sentidos[9]. Então, na morte, que é a separação
da alma do corpo, não há dor porque o corpo só sente dor e tem sensação
por intermédio da alma e a concretização da influência da mesma no corpo; se
se tornar apenas corpo, não haverá influência sobre a alma, não
haverá sentidos nem dor.
Ficou esclarecido, então, que a
morte é uma situação para o corpo que se dá pela separação da alma deste
corpo, a morte não será sentida nem traz dor, porque havia sensação e dor por
intermédio da alma. Quanto a quem tem medo da morte por causa da sanção,
então, na realidade, não tem medo da morte, mas tem medo da sanção; a
sanção se dá sobre alguma coisa que permanece após a morte; então, sem
dúvida , este reconhece suas culpas e suas ações más,
merecedoras de punição. Com isto, reconhece um legislador justo que
sanciona pelas coisas más e não pelas boas ações. Portanto, quem tem
medo da morte, tem medo de seus pecados e não da morte. Quem tem medo de seus
pecados lhe é um dever evitar esses pecados. As más ações
chamam-se pecados e procedem de disposições más; já
‘mencionamos e lembramos seus contrários, ou seja, as virtudes’. Quem tem
medo da morte sob esta forma e este aspecto, então ignora aquilo do que deve
ter medo e tem medo daquilo que não exerce influência nem medo. Quem adquirir
conhecimento, se afirma e quem se afirmar conhecerá a via da felicidade e,
então, seguirá esta via. Quem segue o caminho da retidão visando a um
objetivo, será , sem dúvida, conduzido a este objetivo. A afirmação que
acontece por intermédio do conhecimento, é a certeza e a situação daquele que
reflete sobre sua religião e está apegado à sabedoria da mesma.
Quem diz não ter medo da
morte mas se entristece por deixar família, filho e riqueza e lamenta o que
perderá de deleites e concupiscências do mundo, é necessário
mostrar-lhe que o entristecer-se por algo que é imprescindível que aconteça,
não há esforço útil por este algo. O ser humano está entre os vários
elementos que existem por geração, engendrados corruptíveis. Todo
ser engendrado, sem dúvida, é corruptível. Quem almeja não ser
corruptível, então almeja não existir e quem almeja não existir almeja a
corrupção de si próprio; é como se almejasse ser corruptível e
almejasse não ser corruptível , almeja existir e não existir. Isto é
impossível, não ocorre a quem intelige. Também, se fosse possível ao ser
humano permanecer[10], os nossos antecedentes teriam
permanecido. Se todas as pessoas permanecessem com suas descendências e não
morressem, a Terra não os comportaria. Você pode refletir sobre isto que
estamos dizendo.
Foi estimado que um só homem que
existisse desde há 400 anos até hoje e pertencendo a pessoas famosas, para
que seja possível fazer o censo de seus filhos existentes, como por exemplo o
Príncipe dos Crentes ‘Ali Ben Abi Tálib[11], que a paz recaia sobre
ele, que tem filhos e seus filhos também têm filhos e
permanecessem também gerando filhos e ninguém deles morresse. Calcule a
quantidade dos mesmos em nosso tempo e encontrarás mais do que dez mil
homens; calcule também todos os que viveram neste século[12] na superfície da Terra, tanto no
Oriente como no Ocidente da mesma. Se duplicar este
número, não haverá uma multiplicidade[13]
que os abranja nem uma quantidade que os conte. Calcule a superfície da
Terra. É uma superfície conhecida e limitada. A Terra não os
comportaria nem em pé nem amontoados, como então os comportaria sentados à
vontade? Não restará lugar para construção nem lugar para o plantio nem
trânsito para alguém nem haverá um movimento mais prioritário que
outro. Tudo isto considerando um tempo pequeno. Como seria então
se se aumentar o tempo considerado e as pessoas duplicarem nesta proporção?
Esta é a situação de
quem sente concupiscência pela vida eterna e tem aversão pela morte
e estima que isto seja possível[14], em função da ignorância e de nada entender a
respeito. Então, a sabedoria Divina eloqüente e a justiça ampla
do governo imparcial, é Retidão que não tem ninguém justo
superior a Ele. Ele é o máximo da generosidade e não tem
propósito de vantagem. Aquele que tem medo da morte, tem medo da
justiça de Deus e de Sua sabedoria, tem medo de Sua generosidade e de Sua
doação. Portanto, a morte não é perniciosa, pernicioso é o medo da
mesma. Quem tem medo da morte ignora-a e ignora a essência da mesma.
A verdade sobre a morte
é a separação da alma do corpo. Nesta separação não há corrupção da
alma, é corrupção da composição do corpo. A substância da alma que é a
essência do ser humano e sua parte mais importante e, também, sua redenção,
permanece e não é corpórea. Acompanha-a o que acompanha os corpos, porém,
nada de acidentes dos corpos a acompanha, tais como, a competitividade quanto
a lugar porque não necessita de lugar e não se empenha quanto à
permanência temporal porque prescinde do tempo. Mas o benefício desta
substância através dos sentidos e dos corpos é completude para a mesma. Se se
completar por intermédio destes[15] e depois desvincular-se dos mesmos, dirige-se para o seu
mundo[16] nobre, próximo de seu Criador e de sua procedência, Querido
e Excelso seja.
O homem que pratica uma
caridade por seu irmão falecido ou supre uma dívida do mesmo, fica feliz
pela felicidade deste falecido – porque se a alma for una, o próprio
praticante da caridade, e esta outra alma e as outras almas são uma só
coisa mas, se esta alma for múltipla[17], o caridoso somente praticará esta amabilidade por esta alma em
função de sua semelhança a ela - e essas almas semelhantes são
como se fossem uma só coisa.
Apesar de ter sido
defensor do espírito racionalista e científico, Avicena mostra o apreço que
tinha por sua religião.
[1] Al-Shaikh al-Raís : o grande mestre. Assim era chamado Avicena em sua época. O texto é
uma tradução direta do árabe a partir de uma antologia de textos deste
filósofo intitulada Rasá’il [Epístolas], editadas pela editora
Intisharát Baidar, em Qom, Irã, em 1979, p. 339-346.
[2] Professor de
Filosofia Medieval árabe na Universidade Federal de São Paulo, Campus
Guarulhos.
[3] Trata-se do
Profeta do Islamismo, Muhammad..
[4] Veja a
respeito deste assunto o volume que é parte da grande obra de Avicena
denominada Al-Shifá’ ( A Cura), com o título de Ilm al-Nafs Psychologie
D’ibn Sina), especialmente o capítulo I, editado pela Enterprise
Universitaire d’Etude et de Publication Beyrouth e Editions du Patrimoine
Árabe et Islamique, Paris, 1988.
[5] Espiritual .
Esta palavra pode ser entendida aqui no sentido de Ruh, sinônimo de
Aql, isto é, intelecto.
[6] Deve-se
entender que é o retorno a Deus.
[7] O empenho
pela mesma : no sentido de querer evitar a morte.
[8] Filósofo:
tradução da palavra Hakim que tanto pode significar sábio como filósofo.
[9] É uma
referência aos cinco sentidos.
[10] Permanecer
: quer dizer não morrer.
[11] Trata-se de
um eminente kalifa do Islã e fiel seguidor do Profeta Muhammad e seu genro ;
nascido no ano 600.
[12] É uma
referência ao séc. VII.
[13]
Multiplicidade : esta palavra é utilizada aqui como sinônimo de grande
número.
[14] Que isto
seja possível : que seja possível viver eternamente.
[15] Destes :
dos sentidos e dos corpos.
[16] Seu mundo:
o mundo da alma.
[17] Múltipla :
esta palavra está sendo traduzida a partir da palavra árabe
“mutashátia” que pode significar dispersa ou diversa. Optamos
por múltipla em oposição à palavra una utilizada anteriormente neste
parágrafo
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